Mostrando postagens com marcador crônica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crônica. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 6 de abril de 2010

A palavrinha de três letras

- Não. - Dito de um jeito firme, direto.
Ouvindo essa simples palavrinha de três letras, seu mundo desaba.
- Não? - Este é dito com voz incrédula. Ele, na verdade, significa milhares de outras perguntas. "Como assim?", "Por quê?!" ou até "Tem certeza mesmo?". É a resposta preferida de quem não conseguiu pensar em algo melhor para dizer. Você ganha mais tempo - pense, pense, responda alguma coisa inteligente - e pode até tentar fingir que repetiu a palavra porque não ouviu direito.
- Não-o. - Mas é com esse que você percebe que não tem solução. Ele é dito de um jeito meio irritante e sua pronúncia sai mais como "Nãouo". Significa que não apenas você não vai ter o que quer, mas também que a pessoa nem liga para isso. Como se demorar mais na pronúncia da palavra faça com que ela fique mais fácil para você aceitar.

- Mas por que não? Me dê um bom motivo! - Esse é você, implorando
.
- Porque não. - E essa é a resposta bem articulada que você recebe. Se não bastasse isso, o ponto final quase que tem vida própria. Você apenas tem que entender que "não" é "não" mesmo e, ei, por que você está insistindo?

Mas nem tudo está perdido. Pelo menos você ainda não ouviu nenhuma das derivações do "não" que, por incrível que pareça, são ainda piores que o original.

- Mas, mas... Você não acha que...? - Depois de tantas negativas, você começa a ficar menos eloqüente. A palavra "mas" (outra de apenas três letras) passa a significar tudo o que você está sentindo naquele momento.

- Não, nunca. - Pronto. Você pensa que não tem como ficar pior. A frase foi curta e grossa, mas, como sempre, direta. O "nunca" entra na sua cabeça, você quase consegue visualizá-lo dançando na frente dos seus olhos.

- Nunca? - Além de repetir o comportamento anterior, dessa vez você quase gagueja na ânsia de se livrar daquela palavra. Como se você quisesse cuspi-la para fora da sua menta. Mas pense positivo: a chance de que a pessoa consiga responder "nunca" com a mesma entonação irritante do "não-o" é improvável.

- Não. Nunca. - E acabou. Não exite argumento ou súplica que resolva. Um "não" e um "nunca". Dois pontos finais, que não deixam a menor dúvida: fim. A última palavrinha de três letras que você vai precisar ouvir.

Aniversário de Namoro

Sentados em uma mesa de um simpático café, estão um garoto e uma garota. O garoto sabia que eram perfeitos um para o outro, ela o completava. E foi ali, no dia 31 de maio, que ele a pediu oficialmente em namoro.
- Namoro André? - Ela estava radiante. Permaneceu assim, por uns dois segundos. Com a expressão tornando-se confusa, soltou a pergunta: - Espera, que dia é hoje?
- Hoje é dia 31, amor.
- 31? Tem certeza?
- Tenho sim. Agora me diz, qual sua resposta?
Silêncio. André apreensivo.
- Clarissa?
- Sabe o que é, André? Eu estava esperando esse pedido faz algum tempo...
- Então, eu estou fazendo agora! Antes tarde do que nunca, não é?
- Mas justo dia 31?
- Qual o problema do dia 31?
Clarissa, em vez de responder, fez aquela cara que poucas pessoas conseguem fazer tão bem. Uma cara que diz "eu-não-acredito-que-você-não-está-entendendo-o-problema".
- Meu Deus, Clarissa, qual o problema do dia 31? Aconteceu alguma coisa nesse dia? - André perguntou, cauteloso. Afinal, nunca se sabe, a avó dela poderia fazer aniversário de morte no dia 31 de maio.
- Ai André, não aconteceu nada. Mas pense no que vai acontecer!
- Meu amor, eu não estou entendendo. É algum tipo de superstição...?
- Ai, como você não vê? Nosso aniversário não pode ser no dia 31! Afinal, como vamos comemorar nosso primeiro mês de namoro, por exemplo?
- Aonde você quer chegar?
- Junho só tem 30 dias, amor. 30 dias e não 31! Vê o problema agora?
André riu. Então era só isso. Que bobagem.
- Minha linda, a gente comemora no dia primeiro de julho.
- Sim, mas e o próximo? - Quando viu o rosto confuso de André, Clarissa tratou de explicar: - Junho só tem 30 dias, mas julho tem 31 dias. Mas como a gente iria comemorar o aniversário no dia 31 de julho se a gente já comemorou no dia primeiro?
- E qual o probelma de comemorar duas vezes no mesmo mês? - Tentou pegar a mão dela - Afinal, para comemorar um ano, que é o importante, não vai ter problema.
Clarissa tirou sua mão das dele.
- Amor, mas daí não iria ser um mês de namoro. Ia ter passado apenas 29 dias. Isso não é um mês.
- Então a gente comemora dia 30 de junho e depois no dia 31 de julho. Esquece isso, o importante é que vamos ficar juntos...
Aparentemente isso não era o mais importante para Clarissa, que não estava contente ainda. Afinal, por que ele tinha que pedir bem nesse dia? Ao ver a futura namorada aborrecida, ocorreu uma coisa ao rapaz:
- Afinal, para você, o mês tem 30 ou 31 dias?
- 30, né, André - Disse ela. Mas depois pensou melhor - Quero dizer... Ah, depende. Pode ter 30 ou 31.
- Então, se a gente nem tem certeza de quantos dias tem um mês, esquece isso.
- Esquecer? Você quer que eu esqueça? Como se a culpa fosse minha!
- Que culpa, meu amor, que culpa? Não é uma briga, relaxa...
- Pois a culpa é sua, que me pediu em namoro hoje, logo hoje! Tantos dias no mês e ele me pede em namoro justamente no dia 31. Porque você não pediu ontem, por exemplo?
- Ontem é? - André estava perdendo a paciência - E o que você me diz de fevereiro?
- Fevereiro?
- Sim. Não poderia te pedir em namoro ontem. Como ia ser o nosso... - Fez as contas - ... Nosso décimos aniversário? Fevereiro não tem nem 30 dias.
- É, você tem toda a razão.
- Eu sei, Clari. Agora me diz: você me ama?
- Ora, mas é claro que sim.
- Você quer ficar comigo?
- Quero.
- Então pronto. Resolvidos todos os problemas.
Uma garçonete chegou com os lanches dos dois. Dois sanduíches, um suco de morango (para ela) e uma coca (para ele). André muda de assunto e lancha normalmente, alheio do fato que Clarissa estava estranhamente quieta.
Foi quando ele estava contando uma história sobre futebol que Clarissa finalmente disse:
- Já sei!!
- Já sabe? Mas... Eu já contei essa história para você?
- Não é isso, bobinho - Ela retrucou rindo - Eu já sei como resolver o problema do nosso namoro.
- Eu pensei que a gente já tinha resolvido esse problema. Aliás, nem temos um problema!
- Na verdade, nós tínhamos um problema! Escuta só: vamos marcar nosso namoro através do calendário lunar!
- Calendário lunar? Clarissa, você está louca? Prestou atenção a pelo menos uma palavra do que eu falei durante o lanche?
- Claro que prestei, amor. Mas, sério, o calendário lunar resolve os problemas! É muito mais preciso!
- Você quer calcular os meses do nosso namoro através de um calendário lunar?
- É. Calendário solar não está com nada.
Ocorre um momento de silêncio antes de André falar novamente.
- Você não acha que está exagerando?
- Exagerando? Eu?
Outro momento de silêncio. Um momento longo dessa vez. Foi Clarissa quem falou:
- Vamos fazer assim, André: eu recuso seu pedido de namoro.
- Quê?!
- Isso mesmo. Eu recuso. Daí, amanhã a gente se encontra aqui, na mesma hora que hoje, e você me pede em namoro de novo. No dia primeiro de junho. Pronto.
Falado isso, ela levantou-se, deu um beijo nele e foi embora.
Clarissa nunca entendeu porque André não apareceu no dia seguinte.